O Apóstolo Paulo de Tarso, escrevendo à comunidade de Éfeso (Grécia), com propriedade diz: “Andai como filhos da luz.” - (5:8). Ele adverte aos efésios sobre a importância de todos seguirem sua vida da forma mais correta possível. E o seu recado não se limita aos povos da antiguidade, mas aos seres de todos os tempos. Sem dúvida, é atual e oportuna, pois tudo que pode nortear e melhorar a existência tem caráter sempre positivo. E entre muitas coisas que Paulo quer nos dizer com a colocação acima, sugere a busca de uma direção para nossa vida, com menos tropeços e mais acertos, fugindo da escuridão e utilizando mais e sempre as possibilidades de iluminação interior e expandi-la a quem nos cerca. É questão de opção bem pessoal, pois somos livres para definirmos as diretrizes para nossa caminhada evolutiva.
Refletindo na colocação do respeitável seguidor de Jesus, pensei no filme “O jardim secreto”, dirigido pela polonesa Agnieszka Holland, de Varsóvia. Além de ótimo roteiro, direção, elenco, fotografia, nos leva a refletir várias vezes sobre aspectos cotidianos, que nem sempre analisamos com atenção, perdendo com isso a oportunidade de partirmos do simples para chegarmos ao profundo e essencial. Há no filme uma frase belíssima e de imenso valor meditativo. “Quando olhamos na mesma direção a vida se torna um imenso jardim’.
Uma das coisas mais importantes na nossa existência é a direção que damos ao nosso olhar, aos nossos pensamentos e sentimentos, às nossas atitudes e palavras, considerando o futuro que desdobra-se por milênios diante de nós, lembrando que temos pela frente a eternidade.
Olharmos na mesma direção e transformarmos a vida em imenso jardim significa caminharmos juntos buscando o progresso, a felicidade, o sucesso da coletividade. Mesmo com a diversidade necessária e cada pessoa como universo individual, vivenciarmos o universo coletivo, onde somamos objetivos, sonhos e ideais, sem tantos separatismos raciais, religiosos, políticos, sociais, pois a participação de todos produz um melhor rendimento da vida e nos dá um sentido existencial mais forte e pleno, nos faz sentir parte do todo e não uma ilha isolada no meio do oceano. Há idéias, conhecimentos, aptidões, tendências, objetivos diferenciados, cada um com seus valores que devem ser respeitados. É a soma de todos que se traduz no benefício da solidariedade. Dr. Adolfo Bezerra de Menezes diz: “Solidários seremos União. Separados somos pontos de vista. Juntos alcançaremos a realização de nossos propósitos. Distanciados entre nós, continuaremos à procura de tudo com que já nos encontramos honrados pela Divina Providência”. Olharmos na mesma direção é lembrarmos que todos têm importância para um melhor aproveitamento do tempo que nos é doado por Deus. Não há ser humano desprovido de utilidade, nem alguém absoluto, insubstituível e superior. A vida é bem mais agradável quando olhamos na mesma direção, embora as diferenças e individualidades, quando caminhamos lado a lado, todos valorizando e apoiando todos, interessando-se por todos, somando e fortalecendo esforços. Na música “Baby”, mesmo usando palavras simples, é de uma profundidade considerável, pois nos fala da importância de uns saberem e se interessarem pelos outros, se conhecerem, vivenciarem maior aproximação. Chamo isso de “AFETIVA GLOBALIZAÇÃO HUMANA”.
Conta um escritor da Califórnia, que um astronauta americano corria pelo Central Parque, em Nova York, fazendo exercícios matinais, quando percebeu que outro homem passou a correr ao seu lado. Às vezes, adiantava-se e corria de costas à sua frente ou mudava de lado, mas sempre lhe sorrindo. Ele se sentiu incomodado com aquele desconhecido e passou a imaginar coisas. “Nós sabemos que nosso pensamento é muito rápido, criativo e tem uma facilidade imensa para julgar”. O astronauta conjecturou várias possibilidades. Aquele homem ao seu lado poderia ser um bandido perigosíssimo para assaltá-lo e matá-lo no final da caminhada (trêmulo, já estava até vendo uma faca ou revólver escondido sob a roupa do homem). Talvez fosse um louco que saiu de algum hospital e, com certeza criaria sérios problemas (pálido, já estava percebendo agora sinais anormais no outro). Ou então seria alguém “lhe estranhando e querendo alguma coisa na área da sexualidade” (transpirando, observava claramente dessa vez os olhares libidinosos e os sinais sensuais e lânguidos do homem). Quando esse terceiro pensamento povoou sua mente, ele parou como alguém fulminado por um raio. Olhar furioso, punhos de pugilista, pensamentos de gladiador (já quase enforcando o homem), além de outras coisas, disse aos gritos: O que foi? Está rindo por que? Quem é você? O que quer de mim? Por que está me seguindo? Quer que eu chame a polícia ou te prenda eu mesmo? O homem ouviu as cataratas de perguntas e ameaças, e muito constrangido respondeu: Calma, meu amigo, você não está me reconhecendo? O astronauta aos berros, respondeu rápido e com “voz de Tiranossauro Rex”: Claro que nunca te vi, seu esquisito!!! Mas eu sei o que você quer e garanto que jamais vou fazer isso, entendeu? Bastante sem graça, o homem se explicou: Desculpe-me pelo incômodo, mas eu sou seu vizinho, sou casado e pai de três filhos e moro há 23 anos na casa ao lado da sua. Eu só queria ser seu amigo, por acreditar que você é uma pessoa educadíssima.
Aquele astronauta conhecia o espaço, a lua, alguns planetas, mas não tinha tempo para conhecer seus vizinhos mais próximos. Medito muito nessa passagem e tento não incorrer no mesmo erro. Nós precisamos dar mais atenção às pessoas que aproximam-se de nós, não precipitarmos julgamentos, amadurecermos análise antes de rotularmos . Vermos alí o nosso próximo. Jesus diz que devemos fazer com relação aos outros o que queremos que nos façam.
E Gal Costa, canta: “Você precisa saber de mim...,Baby...” Olharmos na mesma direção, andarmos como filhos da luz é sermos solidários e colocarmos óculos com lentes próprias para enxergarmos os outros seres humanos sempre por um prisma melhor, convivermos e respeitarmos a diversidade, dando-nos as mãos, trazendo todos para o coletivo, contribuindo assim para um mundo melhor, para a implantação do Reino de Deus na Terra, com mais justiça, amizade, amor, solidariedade, apoio mútuo e principalmente, sem preconceito, ódio, indiferença e distância. Jesus ensina que o Reino de Deus está dentro de cada um... Isso se fortalece com a prática, andando como filhos da luz, fazendo da vida um imenso jardim.
Iniciamos e encerramos nosso artigo com Paulo de Tarso. Escrevendo aos romanos ele diz: “Sigamos, pois, as coisas que contribuem para a paz e para a edificação de uns para com os outros” – (14:19).
Colocamo-nos à disposição para troca de idéias, perguntas e comentários. Abraços a todos.
Ademir Fernandes de Sousa - ademirferso@yahoo.com.br
Centro Espírita Amor e Luz